Cena 8 – Inscrições Tardias.
Era
ainda nos tempos do Rei e a questão ecológica já preocupava umas poucas
cabeças. Na corte, ou seja, o Rio de Janeiro; o plantio ganancioso do café
levou ao desmatamento absoluto uma enorme área que antes era verde. Hoje, seria
toda a localidade entre o bairro do Alto da Boa vista, a estrada da Serra
Grajaú/ Jacarepaguá, Barra da Tijuca e a própria Tijuca; sem dúvida, um lugar
enorme. Mas a única cabeça brasileira que se preocupou por ver tudo aquilo
transformado em rocha nua, foi o próprio Rei Dom Pedro II. “El Rei” então deu
ordem para que seis ex- escravos coletassem e transportassem mudas nativas sob
supervisão de um botânico do ainda jovem Jardim Botânico. Assim nasceu a maior
floresta do mundo dentro de terreno urbano, grande o suficiente para se chamar
os bombeiros quando alguém ali se perdia. Agora, quem controlava o lugar, não eram os
guardas da Polícia Federal ambiental, nos bastidores, seus novos donos eram
outros. Era um tipo de furry que onde chega causa desconforto, não só por serem
criaturas com fama muito agressiva, mas também por serem todos místicos sem
exceção. Por toda a Floresta da Tijuca os guardas começaram á notar impossíveis
pegadas de lobo.
Três quilômetros depois do fim da Estrada da
Represa dos Ciganos; uma fogueira estava acesa num buraco no chão, para evitar
que o brilho atraísse a atenção de intrusos. João Von Wolfkin, Were Fenrirr e
Lupo Kyle Lobo chegaram em datas diferentes; mas estavam na Floresta da Tijuca
desde que o dia amanheceu. Ainda esperavam a chegada de mais dois. Eram
justamente os três mais jovens do grupo que se formaria e por isso aguardavam.
Faltavam na matilha o Caçador Beta e o Macho Alpha.
-
Droga, estou morto de fome – João iniciou a conversa da noite – e o pior é que
não trouxe nada, não tinha mais espaço na bagagem.
- Também estou azul de fome – continuava
Fenrirr – espero que os outros dois tragam alguma coisa. Kyle, sabe me dizer se
o “Mansão dos Mortos” já chegou?
-
Abaddon? Sim, ele já está na cidade, mas ele ainda precisa esperar pelo mais
velho, o problema é que eu não sei de onde ele vem e nem quem é. Mas sem ele
Wolfer não vai se unir a nós.
A noite
estava nublada e úmida. Fora o fogo nada havia que os tirasse as muitas
preocupações da cabeça. Sabiam que um lobo mais velho viria, logo, ele seria o
Alpha; mas ninguém sabia quem ele era. Wolfer Abaddon costumava ser o cabeça
até por ser fisicamente o mais avantajado, mas estava muito nervoso e agressivo
nos últimos tempos, com isso, escorregou naturalmente para a posição de Beta, o lobo encarregado da defesa direta da
matilha. O mundo espiritual devido aos últimos acontecimentos com os furries,
havia se fechado. Só os mais experientes conseguiam contato, não era o caso de
nenhum dos três. Esta era a primeira convocação de matilha com missão que
tinham longe de suas casas; mas a cereja no alto desse bolo amargo, era que o
detetive, um lobo como eles; a esta hora já deveria estar frio dentro de um
caixão. Mas então o focinho mais jovem
em volta da fogueira deu sinal:
- Vem
gente aí!- cheirou o ar novamente – são
dois.
Todos
se levantaram, Fenrirr e Kyle mostravam os dentes, lambiam os lábios superiores
e arregalavam os olhos enquanto rosnavam baixo, típico sinal de lobos que
detectam intrusos, só João continuava concentrado, cheirando o ar:
-
Relaxem, um eu não sei quem é, mas é lobo. O outro é o Abaddon.
Wolfer
chegou com uma grande mochila cargueira nas costas, parecia que ia acampar por
muito tempo, tinha o rosto tranquilo apesar da aparência cansada. Do seu lado,
um sujeito na casa dos trinta anos.
A
apresentação entre lobos é uma coisa bastante diferente. Quem vê de fora, acha
que mordidas e garradas vão estourar a qualquer momento, mas eles claramente
primeiro se examinam e depois se entrosam. Cada um trata de se colocar em seu
lugar sem usar a voz. Então depois de uma aparente sobrecarga de agressividade,
começam os cumprimentos em forma de toques, abraços, patadas de brincadeira,
uivos de boas vindas e etc... É um ritual social entre feras, portanto, quem falha
se machuca. Por incrível que pareça, não há más intenções nisso. É um ritual
social entre feras. Mas a coisa fica muito delicada se o recém chegado é um
lobo solitário em boa forma, alguém forte para sobreviver sem matilha chegando
no território causa insegurança geral.
Wolfer
que não era burro deu um passo para o lado, pois se alguém fosse mal
interpretado, não queria que mordida nenhuma sobrasse para ele.
- Boa
noite, Luke Lobo – disse o recém chegado, que além de forte olhava o grupo
debaixo para cima, com um olhar ameaçador; o Alpha já dava seu show. A
intimidação inicial ficava ainda mais pesada pois ele era ainda maior que
Abaddon.
Essa
seria a hora em que uma fêmea se poria a frente para relaxar a tensão e faria
as apresentações; mas nessa matilha não havia fêmeas. Outra forma, era o Alpha
anterior fazer as apresentações, mas formalmente, Abaddon nunca foi Alpha.
Então sobrou para o mais novo; sua curiosidade iria tirar a tensão inicial no
território.
João
saiu do seu lugar e com alegria foi cumprimentar Wolfer que já era amigo seu há
algum tempo, mas na vez de falar com Luke ficou sem jeito. Foi assim com o
grupo inteiro. Então sem aparente explicação, Luke abriu um grande sorriso e
foi muito alegre abraçar um por um, era a segunda parte da apresentação. Todos
relaxaram, mas ninguém ficou sem notar que Luke tinha um braço bem pesado. O
novo Beta então tratou de romper o silêncio:
-
Gente, sou só eu ou alguém mais aí está com fome?
- Caramba Wolfer, o João estava justamente
falando disso com a gente.
- Podem
deixar – disse Luke – já cuidei disso. Alguém fez um espeto aí? Se não houver
espeto isso aqui vai queimar.
Então
atirou no colo de Kyle um grande embrulho feito de plástico. João veio olhar de
perto e soltou o primeiro uivo da matilha nova.
-
Búfalo! É búfalo do norte gente! Onde
você conseguiu isso, Luke?
A carne
foi posta no fogo e lentamente o cheiro começou á subir. Cheiro de lobos
caçando na neve. Cheiro de território bom. Cheiro de matilha feliz e unida.
- Vocês
já notaram que não temos fêmeas no grupo? – perguntou
- É,
infelizmente notei – disse Luke – nenhuma atendeu a convocação?
- Não –
respondeu Abaddon – a única loba que eu sei que está nas redondezas, ainda não
despertou completamente e me parece que mora com um felino em algum ponto da
cidade, não sei onde. A única coisa que sei dela é que não é brasileira.
- Mas pessoal, mudando de assunto – Wolfkin
interrompeu – agora que o Liath morreu, o que é que vamos fazer?
-
Wolfkin, você foi o único de todos nós que teve algum contato com ele, ele
chegou a lhe contar algo? Ele comentou de alguma conclusão?
-
Fenrirr, eu só tive contato com ele por telefone, uma única vez e a ligação não
durou nem cinco minutos. Não teria como ele me explicar algo.
- Foi
sobre o caso do furrie que mataram em Belo Horizonte, não é? – perguntou
Abaddon - Aliás, Luke, isso foi no seu
território, soube de algo?
- Não
muito – respondia o Alpha – mas pelo que vi das fotos, parecia que não foi
humano. Mas quem disse que Liath está morto?
- Ué,
essa é a notícia que corre á boca miúda – Kyle voltava para a conversa – fiquei
sabendo que ele foi metralhado e já faz uma semana. Nem o auxiliar dele
apareceu desde então. A última noticia que tive foi que ele tinha sido muito
ferido e estava mais lá do que cá. Em seguida começaram á falar em morte.
- Não –
Luke sabia de mais coisas – hoje cedo, antes de vir para cá, falei com o
espírito do Alpha da Matilha Maior. Ouvi dele que segundo o lobo espiritual que
acompanha o detetive, ele está muito ferido mas ainda não morreu. Parece que
seu espírito atravessou a fronteira dos mundos muitas vezes em poucos dias, mas
ele vai viver.
- Se o
Grande Alpha disse isso – Wolfikin pois muito respeito na voz – então é o que
acontece, ele não ia mentir pra ninguém.
Todos
concordaram e Wolfkin continuou.
- Mas
agora então nosso problema é outro, ele não deve voltar de imediato, vamos
esperar?
- Não,
somos lobos, não ficamos parados por nada nem ninguém – Luke já mostrava sua
autoridade – meu plano é simples. Vamos trabalhar, vamos auxiliar o Liath
enquanto ele não volta pessoalmente. Eu quero chamar outros grupos, não só
matilhas, mas inclusive outros animais. Vamos montar uma rede de defesa e
investigação para adiantar o serviço. Vamos ficar na defesa da espécie como um
todo, quero leões para patrulhar, chacais e raposas para observar e quem mais
puder contribuir na operação deve ser chamado. Alguma sugestão?
- Sim – Fenrir falou – que tal os cimios? Ah,
vocês acham que não?! Sabia que tirando os bonobo, os orangotangos e os
gorilas, todos os outros címios são hiper agressivos? Chimpanzé só em engraçado
quando filhote, os adultos pesam o dobro de um humano, têm mais de um metro e
oitenta, arrebentam vidros de carro no tapa e as prezas fazem um estrago
horrível. São quase tão territorialistas quanto nós – Fenrirr omitiu o fato que
depois de batalharem contra bandos intrusos, os chimpanzés cometem canibalismo.
- Ratos – disse Kyle – não consigo ver
olheiros melhores. Também devemos chamar os felinos, pois vamos precisar de
ajuda mística por causa do tipo de inimigo que se ouviu falar, e lógico, vamos
ter de chamar os dragões, pois eles começaram isso tudo.
- As
Quimeras – lembrou João – são raras, mas por viverem mudando de forma, podem
fazer de tudo e ninguém sabe com que cara estarão no dia seguinte.
Então
Abaddon que apenas ouvia, em fim entrou na conversa para lembrar um detalhe
desanimador:
- Luke,
meu Alpha. Isso tudo no papel é muito bonito. Mas devemos lembrar que furries
têm um costume muito feio. Se não é igual á mim, não tem minha consideração.
Dragão só fala com dragão, gato só fala com gato, réptil com réptil e por aí
vai. Já observaram como tratam os primos cachorros nos eventos. O que você está
propondo, é a união dos furries como um todo, mas não temos este pensamento.
- Tem razão Abaddon, mas se os furries não
passarem á se olhar como espécie, como cultura ou mesmo como tribo urbana, será
a extinção da raça como um todo.
Coincidência
ou não, um bando de pássaros decolou
assustado na mata coberta de noite. Depois de um curto silêncio, o Alpha disse
a outra parte do plano.
- Bom,
dito isso, agora temos de ver a parte inicial do plano. Liath.
- Olha, eu sei que ele está sob cuidado dos
bruxos, eu sei que eles têm um lugar fechado na cidade, mas não vão nos deixar
bater na porta e entrar; João tem o telefone dele mas não tem o endereço; e
para piorar, se ele está assim tão machucado, vai demorar a voltar. Onde vamos
achar o cara? – pensou Fenrrir.
- Acha
que nós somos os únicos lobos da nessa floresta? – falou Luke - Adoramos correr na mata, não é verdade? Então
cedo ou tarde, o detetive vai bater aqui. Wolfkin fica no território urbano
para telefonar para ele caso saiba de mudança, faça contato também com outros
furries. O resto de nós, cada um vai acampar em uma fronteira da floresta,
assim que ele aparecer vai passar por um de nós que vai alertar o resto da
matilha. Vamos falar com ele todos juntos e nos oferecer para batalhar
- Olha, quando eu vinha para cá hoje, passei
por uma certa Trilha da Caveira – João detalhava – ao longo dela eu notei uns
sinais meio esquisitos da frequência de um lobo que não aparece faz tempo.
Talvez seja o Liath.
- Então
agora vamos jantar – Luke dava suas últimas palavras – depois disso, vamos
assumir posições. A união dos furries, de um jeito ou de outro, começa esta
noite.
Autor: Estevam Silva.
Ilustrador: Marco Aramha.


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