sexta-feira, 29 de agosto de 2014


Cena 8 – Inscrições Tardias.

                Era ainda nos tempos do Rei e a questão ecológica já preocupava umas poucas cabeças. Na corte, ou seja, o Rio de Janeiro; o plantio ganancioso do café levou ao desmatamento absoluto uma enorme área que antes era verde. Hoje, seria toda a localidade entre o bairro do Alto da Boa vista, a estrada da Serra Grajaú/ Jacarepaguá, Barra da Tijuca e a própria Tijuca; sem dúvida, um lugar enorme. Mas a única cabeça brasileira que se preocupou por ver tudo aquilo transformado em rocha nua, foi o próprio Rei Dom Pedro II. “El Rei” então deu ordem para que seis ex- escravos coletassem e transportassem mudas nativas sob supervisão de um botânico do ainda jovem Jardim Botânico. Assim nasceu a maior floresta do mundo dentro de terreno urbano, grande o suficiente para se chamar os bombeiros quando alguém ali se perdia.  Agora, quem controlava o lugar, não eram os guardas da Polícia Federal ambiental, nos bastidores, seus novos donos eram outros. Era um tipo de furry que onde chega causa desconforto, não só por serem criaturas com fama muito agressiva, mas também por serem todos místicos sem exceção. Por toda a Floresta da Tijuca os guardas começaram á notar impossíveis pegadas de lobo.
                Três  quilômetros depois do fim da Estrada da Represa dos Ciganos; uma fogueira estava acesa num buraco no chão, para evitar que o brilho atraísse a atenção de intrusos. João Von Wolfkin, Were Fenrirr e Lupo Kyle Lobo chegaram em datas diferentes; mas estavam na Floresta da Tijuca desde que o dia amanheceu. Ainda esperavam a chegada de mais dois. Eram justamente os três mais jovens do grupo que se formaria e por isso aguardavam. Faltavam na matilha o Caçador Beta e o Macho Alpha.
                - Droga, estou morto de fome – João iniciou a conversa da noite – e o pior é que não trouxe nada, não tinha mais espaço na bagagem.
                 - Também estou azul de fome – continuava Fenrirr – espero que os outros dois tragam alguma coisa. Kyle, sabe me dizer se o “Mansão dos Mortos” já chegou?
                - Abaddon? Sim, ele já está na cidade, mas ele ainda precisa esperar pelo mais velho, o problema é que eu não sei de onde ele vem e nem quem é. Mas sem ele Wolfer não vai se unir a nós.
                A noite estava nublada e úmida. Fora o fogo nada havia que os tirasse as muitas preocupações da cabeça. Sabiam que um lobo mais velho viria, logo, ele seria o Alpha; mas ninguém sabia quem ele era. Wolfer Abaddon costumava ser o cabeça até por ser fisicamente o mais avantajado, mas estava muito nervoso e agressivo nos últimos tempos, com isso, escorregou naturalmente para a posição de Beta,  o lobo encarregado da defesa direta da matilha. O mundo espiritual devido aos últimos acontecimentos com os furries, havia se fechado. Só os mais experientes conseguiam contato, não era o caso de nenhum dos três. Esta era a primeira convocação de matilha com missão que tinham longe de suas casas; mas a cereja no alto desse bolo amargo, era que o detetive, um lobo como eles; a esta hora já deveria estar frio dentro de um caixão.  Mas então o focinho mais jovem em volta da fogueira deu sinal:
                - Vem gente aí!-  cheirou o ar novamente – são dois.
                Todos se levantaram, Fenrirr e Kyle mostravam os dentes, lambiam os lábios superiores e arregalavam os olhos enquanto rosnavam baixo, típico sinal de lobos que detectam intrusos, só João continuava concentrado, cheirando o ar:
                - Relaxem, um eu não sei quem é, mas é lobo. O outro é o Abaddon.
                Wolfer chegou com uma grande mochila cargueira nas costas, parecia que ia acampar por muito tempo, tinha o rosto tranquilo apesar da aparência cansada. Do seu lado, um sujeito na casa dos trinta anos.
                A apresentação entre lobos é uma coisa bastante diferente. Quem vê de fora, acha que mordidas e garradas vão estourar a qualquer momento, mas eles claramente primeiro se examinam e depois se entrosam. Cada um trata de se colocar em seu lugar sem usar a voz. Então depois de uma aparente sobrecarga de agressividade, começam os cumprimentos em forma de toques, abraços, patadas de brincadeira, uivos de boas vindas e etc... É um ritual social entre feras, portanto, quem falha se machuca. Por incrível que pareça, não há más intenções nisso. É um ritual social entre feras. Mas a coisa fica muito delicada se o recém chegado é um lobo solitário em boa forma, alguém forte para sobreviver sem matilha chegando no território causa insegurança geral.
                Wolfer que não era burro deu um passo para o lado, pois se alguém fosse mal interpretado, não queria que mordida nenhuma sobrasse para ele.
                - Boa noite, Luke Lobo – disse o recém chegado, que além de forte olhava o grupo debaixo para cima, com um olhar ameaçador; o Alpha já dava seu show. A intimidação inicial ficava ainda mais pesada pois ele era ainda maior que Abaddon.
                Essa seria a hora em que uma fêmea se poria a frente para relaxar a tensão e faria as apresentações; mas nessa matilha não havia fêmeas. Outra forma, era o Alpha anterior fazer as apresentações, mas formalmente, Abaddon nunca foi Alpha. Então sobrou para o mais novo; sua curiosidade iria tirar a tensão inicial no território.
                João saiu do seu lugar e com alegria foi cumprimentar Wolfer que já era amigo seu há algum tempo, mas na vez de falar com Luke ficou sem jeito. Foi assim com o grupo inteiro. Então sem aparente explicação, Luke abriu um grande sorriso e foi muito alegre abraçar um por um, era a segunda parte da apresentação. Todos relaxaram, mas ninguém ficou sem notar que Luke tinha um braço bem pesado. O novo Beta então tratou de romper o silêncio:
                - Gente, sou só eu ou alguém mais aí está com fome?
                 - Caramba Wolfer, o João estava justamente falando disso com a gente.
                - Podem deixar – disse Luke – já cuidei disso. Alguém fez um espeto aí? Se não houver espeto isso aqui vai queimar.
                Então atirou no colo de Kyle um grande embrulho feito de plástico. João veio olhar de perto e soltou o primeiro uivo da matilha nova.
                - Búfalo! É búfalo do norte gente!  Onde você conseguiu isso, Luke?
                A carne foi posta no fogo e lentamente o cheiro começou á subir. Cheiro de lobos caçando na neve. Cheiro de território bom. Cheiro de matilha feliz e unida.
                - Vocês já notaram que não temos fêmeas no grupo? – perguntou
                - É, infelizmente notei – disse Luke – nenhuma atendeu a convocação?
                - Não – respondeu Abaddon – a única loba que eu sei que está nas redondezas, ainda não despertou completamente e me parece que mora com um felino em algum ponto da cidade, não sei onde. A única coisa que sei dela é que não é brasileira.
                 - Mas pessoal, mudando de assunto – Wolfkin interrompeu – agora que o Liath morreu, o que é que vamos fazer?
                - Wolfkin, você foi o único de todos nós que teve algum contato com ele, ele chegou a lhe contar algo? Ele comentou de alguma conclusão?
                - Fenrirr, eu só tive contato com ele por telefone, uma única vez e a ligação não durou nem cinco minutos. Não teria como ele me explicar algo.
                - Foi sobre o caso do furrie que mataram em Belo Horizonte, não é? – perguntou Abaddon -  Aliás, Luke, isso foi no seu território, soube de algo?
                - Não muito – respondia o Alpha – mas pelo que vi das fotos, parecia que não foi humano. Mas quem disse que Liath está morto?
                - Ué, essa é a notícia que corre á boca miúda – Kyle voltava para a conversa – fiquei sabendo que ele foi metralhado e já faz uma semana. Nem o auxiliar dele apareceu desde então. A última noticia que tive foi que ele tinha sido muito ferido e estava mais lá do que cá. Em seguida começaram á falar em morte.
                - Não – Luke sabia de mais coisas – hoje cedo, antes de vir para cá, falei com o espírito do Alpha da Matilha Maior. Ouvi dele que segundo o lobo espiritual que acompanha o detetive, ele está muito ferido mas ainda não morreu. Parece que seu espírito atravessou a fronteira dos mundos muitas vezes em poucos dias, mas ele vai viver.
                - Se o Grande Alpha disse isso – Wolfikin pois muito respeito na voz – então é o que acontece, ele não ia mentir pra ninguém.
                Todos concordaram e Wolfkin continuou.
                - Mas agora então nosso problema é outro, ele não deve voltar de imediato, vamos esperar?
                - Não, somos lobos, não ficamos parados por nada nem ninguém – Luke já mostrava sua autoridade – meu plano é simples. Vamos trabalhar, vamos auxiliar o Liath enquanto ele não volta pessoalmente. Eu quero chamar outros grupos, não só matilhas, mas inclusive outros animais. Vamos montar uma rede de defesa e investigação para adiantar o serviço. Vamos ficar na defesa da espécie como um todo, quero leões para patrulhar, chacais e raposas para observar e quem mais puder contribuir na operação deve ser chamado. Alguma sugestão?
                 - Sim – Fenrir falou – que tal os cimios? Ah, vocês acham que não?! Sabia que tirando os bonobo, os orangotangos e os gorilas, todos os outros címios são hiper agressivos? Chimpanzé só em engraçado quando filhote, os adultos pesam o dobro de um humano, têm mais de um metro e oitenta, arrebentam vidros de carro no tapa e as prezas fazem um estrago horrível. São quase tão territorialistas quanto nós – Fenrirr omitiu o fato que depois de batalharem contra bandos intrusos, os chimpanzés cometem canibalismo.
                 - Ratos – disse Kyle – não consigo ver olheiros melhores. Também devemos chamar os felinos, pois vamos precisar de ajuda mística por causa do tipo de inimigo que se ouviu falar, e lógico, vamos ter de chamar os dragões, pois eles começaram isso tudo.
                - As Quimeras – lembrou João – são raras, mas por viverem mudando de forma, podem fazer de tudo e ninguém sabe com que cara estarão no dia seguinte.
                Então Abaddon que apenas ouvia, em fim entrou na conversa para lembrar um detalhe desanimador:
                - Luke, meu Alpha. Isso tudo no papel é muito bonito. Mas devemos lembrar que furries têm um costume muito feio. Se não é igual á mim, não tem minha consideração. Dragão só fala com dragão, gato só fala com gato, réptil com réptil e por aí vai. Já observaram como tratam os primos cachorros nos eventos. O que você está propondo, é a união dos furries como um todo, mas não temos este pensamento.
                 - Tem razão Abaddon, mas se os furries não passarem á se olhar como espécie, como cultura ou mesmo como tribo urbana, será a extinção da raça como um todo.
                Coincidência ou não, um bando de pássaros  decolou assustado na mata coberta de noite. Depois de um curto silêncio, o Alpha disse a outra parte do plano.
                - Bom, dito isso, agora temos de ver a parte inicial do plano. Liath.
                 - Olha, eu sei que ele está sob cuidado dos bruxos, eu sei que eles têm um lugar fechado na cidade, mas não vão nos deixar bater na porta e entrar; João tem o telefone dele mas não tem o endereço; e para piorar, se ele está assim tão machucado, vai demorar a voltar. Onde vamos achar o cara? – pensou Fenrrir.
                - Acha que nós somos os únicos lobos da nessa floresta? – falou Luke -  Adoramos correr na mata, não é verdade? Então cedo ou tarde, o detetive vai bater aqui. Wolfkin fica no território urbano para telefonar para ele caso saiba de mudança, faça contato também com outros furries. O resto de nós, cada um vai acampar em uma fronteira da floresta, assim que ele aparecer vai passar por um de nós que vai alertar o resto da matilha. Vamos falar com ele todos juntos e nos oferecer para batalhar
                 - Olha, quando eu vinha para cá hoje, passei por uma certa Trilha da Caveira – João detalhava – ao longo dela eu notei uns sinais meio esquisitos da frequência de um lobo que não aparece faz tempo. Talvez seja o Liath.
                - Então agora vamos jantar – Luke dava suas últimas palavras – depois disso, vamos assumir posições. A união dos furries, de um jeito ou de outro, começa esta noite.
Autor: Estevam Silva.

Ilustrador: Marco Aramha.

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