sexta-feira, 29 de agosto de 2014


Cena 7 -  Platéia.

                Já haviam se passado dois dias e duas noites inteiras, ninguém sabia coisa alguma de Liath. Ainda menos gente sabia do que ocorria com os Furrys, ás vezes até alguns deles mesmos.
                No fim da terceira manhã após o tiroteio, um tigre branco estava sentado em um restaurante na Zona Sul da cidade, havia ido até a casa de um presidente de escola de samba para negociar um contrato como carnavalesco para o ano seguinte. O peixe grelhado que pediu chegou.  Como sempre, estava com dificuldades para segurar os talheres, era preferível enfiar a cara no prato e comer como o tigre que era; porém estava na rua. O restaurante estava vazio, nas mesas do lado de fora, junto do furry haviam somente dois humanos em outra mesa, mas não podia se dar ao luxo de fazer como em casa ou teria de passar atestado de maluco.
                Justo quando ia conseguindo dar a primeira garfada, ele escuta uma voz conhecida vinda de suas costas:
                - Olha só quem está aqui! Tudo bem Tiger?!
                - Chittor?! – Tiger falou surpreso.
                Tiger ronronou baixo e deu um abraço no amigo recém chegado o convidando para sentar á mesa.
                - Não sabia que você estava na cidade – continuava Tiger – chegou quando?
                - Ah, vim de São Paulo tem algumas semanas, me contrataram para um serviço especial, fico aqui enquanto for necessário e então volto para casa.
                - Está trabalhando onde?
                - Estou numa loja de sucata de informática ali atrás da Praça da Cruz Vermelha.
                - Pertinho de lá de casa- sem perceber Tiger soltou um miado no meio da frase- você tem de ir lá em casa assim que puder, estou costurando uma nova suit, está ficando muito boa.
                - Meu, bem que eu queria, mas o tempo é pouco. O serviço é meio embaçado e o cliente é importante. Fora isso, sabe que minha auxiliar ainda não consegue ficar sozinha no laboratório, então eu tenho de por a mão em tudo.
                - E quem é o patrão? Alguma empresa conhecida?
                - Não, é pessoa física – Chittor  era muito amigo de Tiger mas não podia revelar muita coisa para manter o sigilo do caso – é um  detetive que está informatizando o escritório dele. O sujeito tem um nome meio estranho, nome de irlandês, Liath Macthíre.
                - Peraí...Liath. Alto, moreno, cara de matador? Por acaso você já viu alguma coisa de lobo nele?
                - Sim, ele é meio esquisito, nunca tinha visto um bruxo humano antes, mas ele enxerga nossas furzonas e tem algo de lupino nele que não sei dizer muito bem. Mas o sujeito é tipo. Vocês se conhecem?!
                - Claro! Liath com essa descrição só tem um no mundo e é um amigo meu nascido ali na Cruz Vermelha mesmo. Nos conhecemos há mais de década; ele era amigo de uns alunos meus quando eu ensinava desenho. Mas a gente continuou com a amizade. Ele já era bruxo na época e viu meu despertar. Lembra que eu te falei que minha furzona acordou de vez quando eu fiz uma iniciação no totem do gato aqui no Rio? Pois é, ele é o meu iniciador. Mas que eu me lembre, ele trabalhava afinando pianos. Ele agora é detetive?! Bom já tem alguns anos que não nos vemos pessoalmente, as coisas mudaram para mim, para ele não deve ter sido diferente.
                - Pois é, ele ainda afina pianos- respondeu Chittor com um ar preocupado – mas está resolvendo um problema para uns furries de São Paulo que estão aqui no Rio também. Um grupo de dragões.
                Os cabelos da nuca de Tiger se levantaram como os pelos das costas de um gato se levantam quando o bicho vê algo que não gosta.
                - Humm, dragões é? Gente estranha. Estão sempre em reuniões intermináveis e quando saem juntos geralmente algo de pesado acontece. Pior para o Liath, que só conhece os furries através de mim, ele não sabe coisa alguma do assunto e foi se meter logo com dragões? A embrulhada deve ser grande...
                Chittor por questões óbvias estava guardando segredo do caso, mas Tiger era muito amigo, pessoa confiável e acima de tudo outro felino. Resolveu contar o caso para o amigo começando por perguntar o quanto ele sabia sobre a besta. Tiger tinha poucas informações desencontradas; Chittor o colocou á par do resto e terminou dizendo:
                - Pois é, é nisto que seu amigo humano está metido, e minha parte é cuidar do equipamento e das armas dele. Mas o homem sumiu já faz três dias e não manda notícias.
                Mas de repente um rugido de tigre e um miado se ouviram bem perto da mesa. De surpresa outros dois felinos apareciam. Assim com Tiger, Zeng eram um tigre branco; com ele chegava Zenon Lothar, um gato da raça Miskin. Ambos de São Paulo, assim como Chittor.
                Caudas invisíveis ao olho humano balançavam para todos os lados ao som de ronronados e miados. Era difícil tantos gatos se encontrarem assim tão espontaneamente. A alegria era geral.
                - Gente, está todo mundo aqui! Mas que balaio de gatos é esse de repente? – perguntava Tiger, todo felicidade. Naturalmente desviaram do assunto e todos resolveram ficar e almoçar. Tiger continuou com seu peixe, Chittor pediu um bife e foi seguido por Zeng; Zenon para disfarçar, pediu macarrão com almôndegas.
                A dificuldade com os talheres foi geral, mas aí Zenon fala:
                - Não gosto muito de massa, mas é só fingir que estas almôndegas estão com gosto de rato que desce.
                - O cheiro realmente parece com rato – disse Zenon.
                - Eu acho que seria melhor se o gosto fosse de gazela Thompson – respondeu Chittor.
                - Gente – cortou Tiger – vamos esquecer disso, o mais importante é que estamos todos juntos, vamos comer.
                - Concordo – falou Chittor – virou festa, mas ainda acho que se tivesse gosto de gazela seria melhor.
                Apesar dos risos, havia uma razão para os furries começarem á se encontrar no Rio de Janeiro. Os gatos, como sempre, estavam entre os primeiros á suspeitar. E sem avisar, o assunto verdadeiro mais uma vez tomou conta da mesa pela boca de Zeng, mas também ficou claro que nem todos os furries sabiam do caso, e os que sabiam não conheciam toda a verdade.
                - Gente, e a Besta, hein? Ouvi dizer que sumiu mais um no Rio e mataram outro em Minas.
                - Quem sumiu e quem morreu? – Zenon interrogava o amigo – E que papo mais doido é esse de besta?!
                Chittor e Tiger se entreolharam, Tiger  pensou nas mesmas razões de Chittor para falar sobre o caso e falou tudo o que sabia completando com a notícia que o guepardo lhe dera mais recentemente; mencionou também que era amigo do detetive.
                Zenon ficou espantado pois desconhecia tudo do caso e achou aquilo muito grave, ainda mais por saber de mortes na história. Mas Zeng não desconhecia tudo e trouxe noticias novas e alarmantes.
                - É, mas eu estou sabendo que o detetive entrou num tiroteio tem coisa de três dias atrás, desde então ninguém ouve nada sobre ele- por piedade de Tiger, Zeng omitiu o final da notícia.
                O clima de alegria acabou pois Tiger ficou muito preocupado com o amigo humano que já havia passado poucas e boas junto dele. Se consideravam irmãos mesmo andando caminhos separados. O tigre mais velho queria ir para casa tentar achar o amigo. Todos se levantaram e foram se despedindo com abraços, ronronados , miados e cheiradas; o que deixou os dois humanos na mesa próxima de cabelos em pé e bocas abertas. Zenon e Zeng foram para um lado, Tiger e Chittor iam para o ponto de ônibus no lado oposto; mas Tiger voltou correndo pois não resistiu á ânsia e veio perguntar á Zeng se ele sabia algo mais sobre Liath. O outro tigre branco respondeu a pergunta com um ar sombrio no rosto:
                - Olha Tiger, eu estava sem jeito e até com medo de lhe dizer, mas a notícia que rola, é que seu amigo foi baleado, morto e será enterrado amanhã de tarde. Ele falhou e morreu.
                Tiger não resistiu e chorou a morte do irmão homem ali mesmo na calçada.
Autor: Estevam Silva.

Ilustrador: Marco Aramha.

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