Cena 7 - Platéia.
Já
haviam se passado dois dias e duas noites inteiras, ninguém sabia coisa alguma
de Liath. Ainda menos gente sabia do que ocorria com os Furrys, ás vezes até
alguns deles mesmos.
No fim
da terceira manhã após o tiroteio, um tigre branco estava sentado em um
restaurante na Zona Sul da cidade, havia ido até a casa de um presidente de
escola de samba para negociar um contrato como carnavalesco para o ano
seguinte. O peixe grelhado que pediu chegou.
Como sempre, estava com dificuldades para segurar os talheres, era
preferível enfiar a cara no prato e comer como o tigre que era; porém estava na
rua. O restaurante estava vazio, nas mesas do lado de fora, junto do furry
haviam somente dois humanos em outra mesa, mas não podia se dar ao luxo de
fazer como em casa ou teria de passar atestado de maluco.
Justo
quando ia conseguindo dar a primeira garfada, ele escuta uma voz conhecida
vinda de suas costas:
- Olha
só quem está aqui! Tudo bem Tiger?!
-
Chittor?! – Tiger falou surpreso.
Tiger
ronronou baixo e deu um abraço no amigo recém chegado o convidando para sentar
á mesa.
- Não
sabia que você estava na cidade – continuava Tiger – chegou quando?
- Ah,
vim de São Paulo tem algumas semanas, me contrataram para um serviço especial,
fico aqui enquanto for necessário e então volto para casa.
- Está
trabalhando onde?
- Estou
numa loja de sucata de informática ali atrás da Praça da Cruz Vermelha.
-
Pertinho de lá de casa- sem perceber Tiger soltou um miado no meio da frase-
você tem de ir lá em casa assim que puder, estou costurando uma nova suit, está
ficando muito boa.
- Meu,
bem que eu queria, mas o tempo é pouco. O serviço é meio embaçado e o cliente é
importante. Fora isso, sabe que minha auxiliar ainda não consegue ficar sozinha
no laboratório, então eu tenho de por a mão em tudo.
- E
quem é o patrão? Alguma empresa conhecida?
- Não,
é pessoa física – Chittor era muito
amigo de Tiger mas não podia revelar muita coisa para manter o sigilo do caso –
é um detetive que está informatizando o escritório
dele. O sujeito tem um nome meio estranho, nome de irlandês, Liath Macthíre.
-
Peraí...Liath. Alto, moreno, cara de matador? Por acaso você já viu alguma
coisa de lobo nele?
- Sim,
ele é meio esquisito, nunca tinha visto um bruxo humano antes, mas ele enxerga
nossas furzonas e tem algo de lupino nele que não sei dizer muito bem. Mas o
sujeito é tipo. Vocês se conhecem?!
-
Claro! Liath com essa descrição só tem um no mundo e é um amigo meu nascido ali
na Cruz Vermelha mesmo. Nos conhecemos há mais de década; ele era amigo de uns
alunos meus quando eu ensinava desenho. Mas a gente continuou com a amizade.
Ele já era bruxo na época e viu meu despertar. Lembra que eu te falei que minha
furzona acordou de vez quando eu fiz uma iniciação no totem do gato aqui no
Rio? Pois é, ele é o meu iniciador. Mas que eu me lembre, ele trabalhava
afinando pianos. Ele agora é detetive?! Bom já tem alguns anos que não nos
vemos pessoalmente, as coisas mudaram para mim, para ele não deve ter sido
diferente.
- Pois
é, ele ainda afina pianos- respondeu Chittor com um ar preocupado – mas está
resolvendo um problema para uns furries de São Paulo que estão aqui no Rio
também. Um grupo de dragões.
Os
cabelos da nuca de Tiger se levantaram como os pelos das costas de um gato se
levantam quando o bicho vê algo que não gosta.
- Humm,
dragões é? Gente estranha. Estão sempre em reuniões intermináveis e quando saem
juntos geralmente algo de pesado acontece. Pior para o Liath, que só conhece os
furries através de mim, ele não sabe coisa alguma do assunto e foi se meter
logo com dragões? A embrulhada deve ser grande...
Chittor
por questões óbvias estava guardando segredo do caso, mas Tiger era muito
amigo, pessoa confiável e acima de tudo outro felino. Resolveu contar o caso
para o amigo começando por perguntar o quanto ele sabia sobre a besta. Tiger
tinha poucas informações desencontradas; Chittor o colocou á par do resto e
terminou dizendo:
- Pois
é, é nisto que seu amigo humano está metido, e minha parte é cuidar do
equipamento e das armas dele. Mas o homem sumiu já faz três dias e não manda
notícias.
Mas de
repente um rugido de tigre e um miado se ouviram bem perto da mesa. De surpresa
outros dois felinos apareciam. Assim com Tiger, Zeng eram um tigre branco; com
ele chegava Zenon Lothar, um gato da raça Miskin. Ambos de São Paulo, assim
como Chittor.
Caudas invisíveis
ao olho humano balançavam para todos os lados ao som de ronronados e miados.
Era difícil tantos gatos se encontrarem assim tão espontaneamente. A alegria
era geral.
-
Gente, está todo mundo aqui! Mas que balaio de gatos é esse de repente? –
perguntava Tiger, todo felicidade. Naturalmente desviaram do assunto e todos
resolveram ficar e almoçar. Tiger continuou com seu peixe, Chittor pediu um
bife e foi seguido por Zeng; Zenon para disfarçar, pediu macarrão com
almôndegas.
A
dificuldade com os talheres foi geral, mas aí Zenon fala:
- Não
gosto muito de massa, mas é só fingir que estas almôndegas estão com gosto de
rato que desce.
- O
cheiro realmente parece com rato – disse Zenon.
- Eu
acho que seria melhor se o gosto fosse de gazela Thompson – respondeu Chittor.
- Gente
– cortou Tiger – vamos esquecer disso, o mais importante é que estamos todos
juntos, vamos comer.
-
Concordo – falou Chittor – virou festa, mas ainda acho que se tivesse gosto de
gazela seria melhor.
Apesar
dos risos, havia uma razão para os furries começarem á se encontrar no Rio de
Janeiro. Os gatos, como sempre, estavam entre os primeiros á suspeitar. E sem
avisar, o assunto verdadeiro mais uma vez tomou conta da mesa pela boca de Zeng,
mas também ficou claro que nem todos os furries sabiam do caso, e os que sabiam
não conheciam toda a verdade.
-
Gente, e a Besta, hein? Ouvi dizer que sumiu mais um no Rio e mataram outro em
Minas.
- Quem
sumiu e quem morreu? – Zenon interrogava o amigo – E que papo mais doido é esse
de besta?!
Chittor
e Tiger se entreolharam, Tiger pensou
nas mesmas razões de Chittor para falar sobre o caso e falou tudo o que sabia
completando com a notícia que o guepardo lhe dera mais recentemente; mencionou
também que era amigo do detetive.
Zenon
ficou espantado pois desconhecia tudo do caso e achou aquilo muito grave, ainda
mais por saber de mortes na história. Mas Zeng não desconhecia tudo e trouxe
noticias novas e alarmantes.
- É,
mas eu estou sabendo que o detetive entrou num tiroteio tem coisa de três dias
atrás, desde então ninguém ouve nada sobre ele- por piedade de Tiger, Zeng
omitiu o final da notícia.
O clima
de alegria acabou pois Tiger ficou muito preocupado com o amigo humano que já
havia passado poucas e boas junto dele. Se consideravam irmãos mesmo andando
caminhos separados. O tigre mais velho queria ir para casa tentar achar o
amigo. Todos se levantaram e foram se despedindo com abraços, ronronados , miados
e cheiradas; o que deixou os dois humanos na mesa próxima de cabelos em pé e
bocas abertas. Zenon e Zeng foram para um lado, Tiger e Chittor iam para o
ponto de ônibus no lado oposto; mas Tiger voltou correndo pois não resistiu á
ânsia e veio perguntar á Zeng se ele sabia algo mais sobre Liath. O outro tigre
branco respondeu a pergunta com um ar sombrio no rosto:
- Olha
Tiger, eu estava sem jeito e até com medo de lhe dizer, mas a notícia que rola,
é que seu amigo foi baleado, morto e será enterrado amanhã de tarde. Ele falhou
e morreu.
Tiger
não resistiu e chorou a morte do irmão homem ali mesmo na calçada.
Autor: Estevam Silva.
Ilustrador: Marco Aramha.

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